quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Patinação

  "O admirável não é apenas que as roupas sejam tão belas, que os movimentos se desenvolvam com tanta harmonia: o admirável, principalmente, é que tudo isso deslize sobre patins. As figuras vêm de longe, velozmente, mas numa velocidade suave, silenciosa e feliz. Devíamos andar assim no mundo. Nossos trajetos deviam cruzar-se desse modo: sem choques nem pausas, com um desenho de cortesias que se entrelaçam delicadamente. E vem a ser justamente a mais adequada ao conjunto, como se a submissão à lei não lhe diminuísse o valor próprio mas, ao contrário, o salientasse e lhe revelasse imprevistos aspectos.
  Alguma coisa fugidia, apaixonada de distância e mistério existe no nosso coração, pela delícia que nos causam os movimentos dos patinadores retirando-se implacável e sutilmente, como um som que gradativamente se apaga, uma estrela que, inexorável, desaparece. Os patinadores vão sendo levados, num tempo mais profundo que o do seu bailado, absorvidos pelo ímã do horizonte, inalcançáveis e íntegros como deuses.
  Alguma coisa também deve existir em nós atraída pela resposta do eco, ansiosa de repercussões e espelhos, para nos encantarmos com os patinadores que se acercam e reconhecem e combinam seus abraços com esse perfeito ritmo em que confundem e recuperam sua unidade, aproximando-se e separando-se, livres e prisioneiros, deixando que se cumpra com rigor e graça a parábola de seus encontros e desencontros.
  Pensa-se que isto é uma distração frívola, e está-se diante da verdade do mundo, iluminado de outro modo, com algumas pessoas interpretando esta vida de cada dia, apenas alegoricamente.
  Alguma coisa deve existir em nós que se recusa a andar levitando entre as douradas estrelas: que ainda não se desprendeu totalmente da selva, da burla, do árido ensinamento do chão. Porque deste modo nos regozijamos com as presenças grotescas, e as formas inseguras, e o medo e o risco, a aventura talvez inábil do gesto incerto... Pode ser que não sejamos sempre desmesuradamente líricos: um prosaísmo pesado, espesso, talvez compense em banalidades rasteiras o ímpeto com que, outras vezes, nos atiramos a altas e inquietantes expedições...
  Mas é tudo sobre patins, num abrir e fechar de olhos, sem que mais nada nos detenha, porque já partimos, seguimos, continuamos, estamos sendo levados, pela nossa vontade e pela fatalidade deste escorregar por uma superfície gelada.
  Alguma coisa em nós deseja a solidão, a companhia da própria sombra, apenas, para assim nos emocionarmos com o dançarino isolado que se debruça para o seu reflexo, que em si mesmo se encontra, seus pés unidos perpendicularmente a seus pés, e assim vai, e volta, e não volta, fazendo o seu caminho no vazio, inventando um itinerário e uma direção.
  Mas alguma coisa nos atrai para o convívio e o colóquio, pois assim nos alegramos com a multidão festiva que se reúne e desdobra numa infinita coreografia, toda cintilante e entusiástica, depois de tantas provas acrobáticas, de tantas evoluções e tantos e tão variados arabescos.
  Sobre patins. Com essa rapidez que desejaríamos ter, que o nosso pensamento, o nosso coração desejam, e este nosso corpo fatigado não consegue possuir. Sobre patins. Num mundo sem esquinas, sem acidentes, com os espaços oferecendo-se à nossa passagem, e todos nós, cordiais e puros, realizando em sua plenitude o ideograma da nossa vida na clara página da existência. Sobre patins. Com a disciplina fluida de cada instante, de horizonte a horizonte, sem erro, temor nem desfalecimento!"


Cecília Meireles. 
  

domingo, 9 de setembro de 2012

"Portanto, a composição de um estado de espírito plástico não se baseia nas disposições dos gestos de figuras ou na expressão de olhos, de rostos, de atitudes, mas consiste na distribuição rítmica das forças dos objetos, dominadas e guiadas pela própria energia do estado de espírito que compõe a emoção. 
A conclusão disso é, assim, uma visão de arte em que o estado de espírito plástico não é mais a narrativa psicológica de um fato determinado, mas a síntese de uma emotividade ou drama universal de que nós também fazemos parte, como toda a realidade que nos envolve, isto é, do qual faz parte tanto "a dor de um homem" quanto "a de uma lâmpada elétrica, que sofre, e se atormenta, e grita com as mais dilacerantes expressões de cor."

domingo, 12 de agosto de 2012

"That's what always inspired me about every Miyazaki-san film I've seen. It's like, "Wow! This is someone who really loves animation as much as I do." That totally excites me."



John Lasseter talks about Hayao Miyazaki. :)

segunda-feira, 6 de agosto de 2012




Shuu-chan. ♥

terça-feira, 17 de julho de 2012


"Mi niñita chiquitita:
(…)
Estou feliz com a comissão do seu retrato pro Museu de Arte Moderna: será magnífico, você entrando lá pra sua primeira exposição. Será a culminação do seu sucesso em Nova York. Cuspa em suas mãozinhas e crie algo que vai superar tudo que estiver por perto e fazer da Fridita o Grande Dragão [la mera dientona] (…)
Não seja boba; não quero que por minha causa você perca a oportunidade de ir para Paris. ACEITE TUDO QUE A VIDA TE DER, O QUE QUER QUE SEJA, DESDE QUE SEJA INTERESSANTE E TE DÊ ALGUM PRAZER. Quando a pessoa fica velha, ela sabe o que é ter perdido o que lhe foi oferecido quando ela ainda não sabia o suficiente pra aceitar. Se você realmente quer me agradar, saiba que nada pode me dar prazer maior do que saber que você tem as coisas. E você, minha chiquita, merece tudo. 
(…) Não os culpo por gostarem de Frida, porque eu também gosto dela, mais do que qualquer outra coisa. (…)
Tu principal sapo-rana, Diego."

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Eu nunca vou ter palavras para você.
Eu nunca vou ter palavras para a sua solidão.
Eu nunca vou ter palavras para a sua angústia.
Eu nunca vou ter palavras para as suas mãos ansiosas.
Eu nunca vou ter palavras para os seus lindos olhos gritantes que parecem querer me engolir.
Eu nunca vou ter palavras para a sua loucura inquietante.
Eu nunca vou ter palavras para o seu tom de voz calmante e angustiante.
Eu nunca vou ter palavras para a sua expressão quando acaba de acordar.
Eu nunca vou ter palavras para nada. Nada. 

Principalmente para você.

Nunca vou ter palavras que te salvem. Que te levem a uma outra dimensão. Que te traguem de volta para "cá". Que te faça revirar o estômago. Ou que acalme-os. 

Nunca. 

Esta é a única palavra que tenho para você. Para mim. Para nós. Martelando nos meus pensamentos a todo momento, infernalmente.